segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Espiritualidade não é religião

Os princípios do Movimento Escoteiro e os valores que eles sustentam se resumem em três categorias, sendo elas sociais, pessoais e espirituais. Sendo o último o tema o qual iremos tratar nessa questão. O primeiro equívoco quando tratamos de espiritualidade é associá-la única e exclusivamente aos credos religiosos existentes. Muitas são as seções que tem dificuldade de trabalhar espiritualidade, devido pensar dessa forma. Uma vez que a maioria das seções é composta por jovens de diversas religiões, os escotistas sentem dificuldade de propor atividades devidas pensar na espiritualidade como sendo apenas a participação nos cultos religiosos e seguir os preceitos de suas religiões. E errados estão também os escotistas que possuem jovens de mesmo credo e trabalha espiritualidade da forma mencionada anteriormente. Espiritualidade além de estar ligada a assistir as cerimônias características de cada credo, está relacionada à gentileza do comportamento o que leva o ser humano a agir com amor, carinho, caridade e respeito, para com seu próximo, e para consigo mesmo. Espiritualidade está na capacidade de ver o mundo como único para todos os seres existentes, e que cada ser tem sua função para fazer desse mundo um mundo onde todos possam compartilhar. O capítulo 03 (três) do POR – 2013 – Princípios, Organizações e Regras da União dos Escoteiros do Brasil, nos trás algumas regras que devem ser observadas quanto à orientação espiritual dentro do movimento escoteiro. REGRA 021 – ORIENTAÇÃO GERAL Podem participar da UEB pessoas de todos os credos, sem qualquer distinção e todos são estimulados a cumprir os preceitos de sua religião ou a buscar um sentido espiritual para sua vida. Assim, realizam-se atividades de caráter geral que contribuam para o desenvolvimento espiritual, atividades religiosas de diálogo inter-religioso ou ecumênico e atividades religiosas específicas conforme o credo dos participantes. A prática do Escotismo inclui o cumprimento dos deveres para com Deus e cada participante o faz de acordo com os ditames de sua fé. Estimula-se também a prática religiosa de seus membros, promovendo-se atividades religiosas específicas, coordenadas por Escotistas/Dirigentes das respectivas religiões. REGRA 022 – ORIENTAÇÃO PARA AS UNIDADES ESCOTEIRAS LOCAIS I – Todos os participantes devem seguir os preceitos de sua fé ou buscar um sentido espiritual para sua vida; II - Quando a Unidade Escoteira Local for composta por jovens pertencentes a religiões diferentes, seus escotistas e dirigentes deverão respeitá-las e cuidar para que cada um observe seus deveres religiosos. Nas atividades, todas as preces deverão ser de caráter geral, simples e de assistência voluntária; III - Quando a Unidade Escoteira Local for composta, obrigatoriamente, por jovens de uma única religião, seus escotistas deverão pertencer a essa mesma religião e terão, como obrigação indeclinável, que zelar pelas práticas religiosas de seus integrantes e pela orientação religiosa da Unidade Escoteira Local, de acordo com a entidade religiosa; essas Unidades Escoteiras Locais serão designadas como de denominação religiosa; IV - Todos devem ser estimulados a assistir às cerimônias de sua própria religião e têm o direito de se isolar, quando em acampamento ou atividade semelhante, para orações individuais ou coletivas, bem como para o estudo de sua religião; V - É vedado tornar obrigatório o comparecimento dos jovens às cerimônias religiosas de outro credo. O comparecimento a cerimônias e/ou locais de culto de outras religiões somente poderá ocorrer se autorizado pela família, se não houver ofensa a preceitos do credo do jovem e deverá ser como mera assistência e com alto grau de respeito. REGRA 023 – DA ASSISTÊNCIA RELIGIOSA I - A UEB, em todos os níveis, poderá ter, em relação a cada religião de seus participantes, religiosos ou leigos designados para atuar como assistentes religiosos em favor de seus adeptos. II - Cabe aos Assistentes Religiosos o acompanhamento das atividades de desenvolvimento espiritual específicas da religião correspondente. Tal assistência deverá ser exercida num ambiente de absoluto respeito pelas crenças alheias e de modo a que cada um possa cumprir seus deveres religiosos, conforme os ditames de sua fé e os imperativos de sua consciência. III - A Assistência Religiosa poderá ser objeto de convênio a ser realizado com a instituição religiosa interessada. Sabendo que a espiritualidade está ligada a gentileza do comportamento e que de forma implícita carrega todas as formas de explorar a questão espiritual, e que é responsabilidade do chefe escoteiro incentivar e não ser o doutrinador, diversas são as possibilidades que nós escotistas temos para trabalhar essa questão junto aos nossos jovens. A Apostila do Curso Básico da Linda Escotista nos aponta diversas formas de trabalhar a questão espiritual, uma vez que o desenvolvimento espiritual é um processo de dentro pra fora, que surge de uma fé espontânea, e cresce por meio do entendimento de sua doutrina e desemboca num compromisso pessoal para com Deus, com o próximo e consigo mesmo. Cabe ao chefe escoteiro ser o exemplo pessoal, ressaltando as obras do criador através das atividades ao ar livre, desenvolvendo atividades de boas ações individuais ou coletivas, mostrando ao jovem o quão é gratificante servir, favorecer momentos de orações, reflexões e estimular a conquista de especialidades religiosas, são formas de trabalhar a questão espiritual dos jovens nas seções escoteiras. Particularmente diversas são as atividades que já trabalhamos dentro da seção escoteira a qual pertenço a Tropa Escoteira Fênix do Grupo Escoteiro Caiapônia 125/MG. Desde uma simples oração na cerimônia da bandeira, nos momentos de refeições, em momentos de recolhimento noturno, até atividades de arrecadação de donativos ao Hospital de Câncer de Barretos, atividades comunitárias, atividades de reflexões, cultos ecumênicos, momentos de agradecimento ao término de atividades escoteiras além do incentivo a participação das cerimônias dos cultos religiosos. Mais uma em particular me marcou e sei que marcou os jovens da Tropa Sênior Yellowstone do nosso grupo escoteiro. Apesar de não pertencer à chefia da tropa fui convidado a ajudar na elaboração de uma atividade de espiritualidade para trabalhar com os jovens daquela seção. A atividade consistiu de passar uma noite juntos, num local bem arborizado as margens do Rio Paranaíba, margem que dava direto para o nascer do sol no dia seguinte. A atividade deu início às 23 horas do dia 23 de julho desse ano, com término às 07 horas do dia 24 de julho, a noite era fria e passamos ao relento, juntos a uma bela e aconchegante fogueira, usufruindo também do calor físico dos irmãos escoteiros presentes a atividade. A noite foi composta de diversos momentos, onde na abertura o chefe Douglas Martins de Moura IM em andamento e chefe da tropa, lançou a mensagem que serviria para que déssemos início as nossas reflexões, recitou a mensagem de título “A Caneta” constante do livro Fogo de Conselho, tudo com um fundo musical sereno que realmente capturava a atenção dos jovens. A mensagem coube como uma luva para o momento que se vivia na tropa, logo após o chefe Wagner Antônio de Lima, assistente da tropa, passa a conduzir a reflexão, todos bem juntinhos, de olhos fechados sempre, com uma bela canção de fundo, escutaram e puderam refletir sobre suas ações, sobre estar fazendo o seu melhor possível, sobre estar escondendo atrás de um lenço escoteiro, consequentemente atrás da promessa escoteira. Em seguida eu chefe Ronaldo Francisco Pereira, solicitei que deitassem no gramado bem juntinhos uns dos outros, pedi que continuassem com os olhos fechados e refletissem sobre o quão maravilhoso estava sendo aquele momento, por estarmos juntos, e juntos desde a nossa fundação, momento em que todos ainda eram bem pequenos e agora moças e rapazes. Juntos de pessoas que a gente ama que a gente quer bem, solicitei que levassem seus pensamentos a aqueles que eles mais queriam bem e analisassem seus comportamentos para com eles. Nesse momento, todos, muito emocionados, solicitei que abrissem os olhos e contemplassem o maravilhoso teto da barraca que nos cobria, o teto estava claro, limpo e muito estrelado, instante que perguntei quantos no mundo inteiro estão tendo o mesmo privilégio que nós? Coloquei uma oração cantada e pedi que todos se levantassem e dessem um forte abraço no seu irmão escoteiro, e algo marcante nesse momento aconteceu, um sênior me abraçou e disse “obrigado chefe”. Pude sentir sua lágrima escorrer em minha face, e mais uma vez tive a certeza de estar no caminho certo trabalhando com devoção no movimento escoteiro. A atividade continua, um belo lanche é servido e os jovens passam a tocar violão e cantar canções escoteiras e do repertório popular nacional. Nesse momento me recolhi a uma rede e fiquei só observando, que cena mais bonita, o envolvimento entre eles e entre os demais chefes presentes. Rolou canções e jogos de roda até o amanhecer onde tivemos a graça de ver o sol nascer refletindo nas águas do Rio Paranaíba, ao som de belas melodias, refletindo sobre que possamos viver um dia de cada vez, mas um dia bem vivido, fazendo nosso melhor para com Deus, o próximo e consigo mesmo. Pois aquele sol que acabara de nascer poderia ser último para alguns de nós, então porque desperdiçar a vida com coisas não vale a pena. Despedimo-nos todos contentes e satisfeitos e voltamos ao aconchego de nossos lares, com a certeza e o espírito renovado e cheio de luz. Isso é trabalhar espiritualidade em minha opinião.

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